Ser (neo)pagã é uma forma de entender a vida com um prisma de antiguidade. É buscar o divino nos nomes que hoje podem ser conhecidos como mitológicos ou folclóricos. Eu faço isso porque sinto que dessa forma me encontro. Me vejo nas energias como vistas primordialmente por um grupo, pelos helênicos, pelos que viveram e levaram a antiguidade clássica como devoção e religiosidade. Gosto de olhar para o sol no céu e dizer, “bom dia, Apollo!” e saber que de seu carro solar Ele me olha e me cumprimenta e me cuida, como eu cuido de sua memória e de seu culto. Acredito que tudo que existe se criou em tempos imemoráveis no qual o Caos reinava e explodiu em Céu e Terra e que assim, tudo possui fleuma divina: das pedras aos Deuses... Tudo é filho e produto daquilo que não mensuramos e não entendemos muito bem, mas sabemos que é Criador e Manifestação. Pessoalmente eu gosto de olhar isso pela história de Gaia, Urano e seus filhos, pois dão sentido ao que minha alma entende de sagrado em tudo que existe. E desses, vem Apollo e Afrodite, meus pais divinos, que honro em todos os meus ritos e rituais. E com ritos e rituais eu penso em magia, claro. Em manifestar, como Caos, uma realidade. Penso que lidar com magia é uma coisa maravilhosa, pois nos ajuda a pensar em como lidar com as nossas vidas. Essa é a grande magia: poder transformar por nossas mãos, por ervas, água, velas, incensos e vontade o que é parte de nós. E nisso vejo as curas, as bênçãos e as defesas de nós e dos nossos. Mas também acho que nem só de magia vivem as bruxas e seus ritos e rituais. Eles vivem de honra aos Deuses, aos Ancestrais, à Natureza. E isso é feito em calendários, ou seja, em datas que escolhemos. Talvez algumas sejam escolhidas por uma convenção, mas eu acredito piamente que essas datas têm de falar com os nossos corações. Dessa forma, estou em ritual no Dia de Finados, quando é aniversário de nascimento de um avô meu e de morte do outro; ritualizo em todas as luas cheias e, com elas, ganho uma mensagem de Apollo pelos arcanos do tarot; ritualizo no Ano Novo Astrológico, em 21 de março, com meus amigos e irmãos de prática; ritualizo a entrada do ano novo fiscal pois ele rege meu trabalho e meu sustento. Penso que os rituais podem ser feitos para as mais diversas razões e motivos, em qualquer dia, buscando a ligação dos Deuses com o dia-a-dia. Um capítulo dessa coisa toda de ritos e divindades, estão meus Ancestrais. Na religião da Roma tribal eram os espíritos dos que morriam e viravam deuses dentro de suas casas, criando assim, religiões domésticas e distintas a cada moradia. Com o passar do tempo, os mortos das famílias se tornaram os deuses conhecidos como Lares e eles garantem a prosperidade, fartura e sucesso da família. Eu os sigo e os sinto. Penso que os meus amados que já partiram são parte da divindade da minha casa, da sacralidade do meu sangue. Não que a origem física do sangue me garante o lugar de strega, mas honrar sua hereditaridade física e astral, sim, garante o pilar da Bruxaria Italiana. Assim, meus avôs e tios-avô são parte do meu culto. São os homenageados, juntamente com aqueles que não conheci, mas seguiram o mesmo caminho que eu. Sua honra está num pequeno altar ao lado da minha cama. O que os romanos chamavam de “lararium”, eu chamo de “altarzinho dos ancestrais” e nele deixo uma pequena vela, oferendas em sementes e folhas de oliveira e muitos presentes que ganhei dos que amo, como escamas de peixe-amazônico, um golfinho de pedra esculpido a mão, brasa de fogueira, conchas das praias de Caraguatatuba, SP, onde cresci – onde estive com meus avós nos verões de ontem. Por fim, acredito na força da família. Sempre recebi muito apoio dentro de casa, sempre me senti confiante e com suporte dos meus pais para buscar os caminhos de espiritualidade que desejasse. Não desejei muito até encontrar a Bruxaria e desejei ainda menos quando a Bruxaria Italiana se mostrou. Entendi ai que esse era o meu caminho a trilhar. Claro que ao longo do tempo o caminho ganha mais flores, fontes e templos. Templo dos Lares, templo de Afrodite, templo de Apollo, o meu omphalos. De toda forma, de uma família preponderantemente cristã tive a base para seguir uma vida (neo)pagã. Como? Através de uma educação que presa o “Deus de seu coração, Deus de sua compreensão”. Com o tempo e com a dedicação e o estudo, descobri que na minha casa também tem magia. Tem trabalho de cura, tem trabalho de cuidado e proteção para nós e para quem amamos. Existem inclusive os trabalhos que podem ser vistos ou entendidos como “maldições”, mas que o fazemos para proteger o nosso sangue e o nosso lar e com estrita autorização de nossos Mestres, de nossas Divindades. Entendendo tudo isso e consolidando minhas práticas todas, fui iniciada pelo meu pai. Hoje, somos uma pequena confraria. Uma confraria de dentro de casa; uma que tem sobrenome: Morselli e que tem seus mistérios que aos poucos se revelam, para quem aqui mora. Gosto disso, não por um senso de exclusividade, mas porque é a nossa honra e união como família, como grupo de praticantes e de buscadores da espiritualidade. Aqui não faz diferença para qual deus você reza ou se dedica, contanto que se dedique ao bem-estar coletivo e ao seu próprio. De tudo ainda, existem coisas de nossas famílias que se contarmos para alguém soa estranheza ou fofoca – não somos capa da revista “Caras”. Saber calar é um passo importante do caminho. Além de muito necessário. De resto, ser bruxa, ser strega é também querer ousar. A vida é um campo divino para conhecermos!! |
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