Aprendendo com os arcanos

[de Pietra DiChiaro Luna]

Fazer divinações é parte do “trabalho” da strega. Na verdade, é mais como um instrumento de conhecimento, uma lente para ver as realidades de uma forma mais profunda. Penso que não importa qual caminho espiritual se siga, há sempre uma busca pelo conhecimento, pelo autoconhecimento – acredito que o Tarot, ou as Runas ou a Astrologia tenham essa função. Portanto, imagino que todos – ou quase todos – que trabalham sua espiritualidade, também trabalham um oráculo.

O oráculo é a voz dos deuses. A visita ao oráculo é a chance de ter uma mensagem divina. Não só na Grécia, mas também no Egito, Tibet e na China, entre muitos outros locais, os oráculos eram consultados. Mas me coloco melhor frente à casa de meu pai: o Oráculo de Delfos. Quando a pneuma de Apollo enchia os pulmões da Sibila, ela falava as palavras do Deus. As profecias eram ditas, as mensagens proferidas, as sentenças dadas.

É interessante pensar que nos oráculos sempre há o consulente e o leitor, o significador das mensagens. E existe a mensagem: as cartas, as runas, a voz de Apollo. E o trabalho do significador é ajudar o consulente a lidar com todos aqueles símbolos e palavras. Quando Apollo se pronunciava pela Sibila, era necessária uma interpretação do que era dito, pois as palavras eram como um enigma. Talvez daí, o “conhece-te a ti mesmo” para que elas possam fazer sentido no que o consulente.

Na Itália é dado que as divinações são, no limite, um grande atrativo da cultura. Desde a cultura etrusca, posteriormente tomada pelos etruscos, a adivinhação e a busca pelo futuro ou pelos auspícios são conhecidas. Os etruscos olhavam para o céu, interpretando nuvens, o Sol, a chuva, os raios e relâmpagos, além dos animais que perpassam o céu. Na terra, as árvores e os animais eram sinais de como a realidade poderia se manifestar ou de como situações poderiam se encaminhar. E isso agradava os romanos. Com a queda da civilização etrusca, seus sacerdotes ganharam uma importante posição entre os patrícios e os nobres. Muitos também buscavam oráculos, como Delfos. Hoje, as cartomantes, as ciganas, as quirólogas e os astrólogos são muito bem vindos na Itália, que como os brasileiros, querem dar uma espiadinha no futuro. Por mais católico que o país seja, sabe-se que os antigos reis, generais e estadistas, além das pessoas comuns, buscavam pelas vozes dos deuses para compreender suas vidas ou refletir sobre como proceder (muitos inclusive, personagens bíblicos). Seguimos então com uma forte tradição de olhares oraculares, streghe ou não.

Na minha prática, o tarot é um instrumento tão importante quanto velas, ervas ou incensos. Estudar os símbolos e entender como eles fazem parte da minha vida é também um jeito de cultuar meu pai divino, Apollo. Então, toda Lua Cheia chega o momento de trabalhar com esse instrumento. Após as honras aos Deuses, Ancestrais e a Lua, vem o momento de oráculo. Penso que é um exercício importante para nos entendermos e entendermos os movimentos que a vida toma.

Assim, convido aos praticantes e estudiosos à olhar para os arcanos, aos oráculos com uma curiosidade que vai além de conhecer o futuro, mas de se conhecer. Exercícios simples podem ser feitos, além de ter uma carta na lunação. Quando nos deparamos com um arcano, podemos pensar: o que me chama a atenção? Quem é a figura desse arquétipo? Qual o símbolo da carta que me chama?

Depois de passar a lunação, vale a pena pensar em todas essas questões para ponderar em como as coisas foram e vem mais uma pergunta: Houve um momento no qual o arcano se manifestou claramente?

Com o tempo nos vemos em todos eles e passam a se manifestar “descaradamente” em nossas vidas. É uma experiência rica de conhecimento e de entender os símbolos universais dos arquétipos. Seja A Sacerdotisa e viva os Deuses. Seja O Enforcado e ganhe um novo ponto de vista. Seja O Imperador e construa uma nova vida.

Que Apollo nos inspire!

Bibliografia sugerida:

BANZHAF, Hajo & THELER, Brigitte. Tarô de Crowley. Palavras-Chave. São Paulo: Madras, 2006.

NICHOLS, Sallie. Jung e o Tarô. Uma Jornada Arquetípica. São Paulo: Cultrix, 2000.

STEINER-GERINGER, Mary. O Tarô e o Autoconhecimento. São Paulo: Pensamento, 1990.