A herança de Aradia
[de Pietra DiChiaro Luna]


Estes textos que pretendo postar mensalmente vão tratar de práticas, crenças, tradições e paganismo ítalo, frente a minha prática, crença, pesquisas e experiências. De forma alguma estou trazendo toda a verdade sobre a bruxaria na Itália; estou tentando desvelar algumas questões.

Este é um pequeno universo, porém é imensamente povoado - e nem todos os
habitantes querem conversar. O fato é que as streghe são muitas:
sozinhas ou em clãs, famílias ou tradições. Portanto, enquanto me coloco, convido meus irmãos e irmãs a se expressarem a fim de podermos construir conhecimentos, proporcionar trocas e expor experiências. E como eu sempre digo: a experiência é o que transforma conhecimento em sabedoria.
Este mês, trago a questão da herança. Resolvi pegar um dos pilares mais tradicionais das práticas de Stregheria - ou de qualquer vertente mais tradicional (e hereditária): o sangue. Para muitas streghe, ele é o passaporte para a entrada nos "mistérios".

A herança do sangue é bem forte e une muitos clãs e praticantes. Para alguns, o simples nascer em determinada família já é um rito iniciático. A questão central aqui é:
fazer parte de uma família, ter uma descendência "mágicka" conta - e muito! Muitas famiglias não abrem seu livro mágicko ou sua linhagem para ninguém e os únicos estranhos são os cônjuges dos filhos.

"Poxa vida... então, se eu não vier de uma família bruxa, nada feito?", alguns podem estar pensando. :( Na verdade, muitas trilhas levam ao Caminho. Algumas streghe acreditam que o processo evolutivo permite aos iniciados estar sempre juntos dos seus - porém, nada garante que com o mesmo sangue terreno. Eu acredito fortemente nisso. Alias, vale observar as pessoas que seguem religiões africanas; tradições de sangue negro. Muitos têm esse sangue correndo em suas veias, no entanto alguns daqueles que se dedicam e se iniciam são de descendência preponderantemente européia. O que as traz até o terreiro?

Aleph, meu companheiro mágicko, diz "que são pessoas de alma negra". Quem remexeu caldeirão uma vez, fatalmente o fará novamente.

Aqui então se firma um ponto interessante: não importa de onde vem a sua ancestralidade, mas para onde ela te leva - além de sabermos reverenciar isso com propriedade.

Se seus avós são como os meus, católicos e espíritas, isso não impede que ninguém de trilhar uma estrada de (neo)paganismo. Nossos rituais e nomenclaturas podem ser diferentes, mas nossa essência é como a água: molda-se ao recipiente que a carrega. Procuramos o divino; eu o vejo no Sol, na Lua ou na Terra, mas minha família o vê em Jesus. Ainda assim, somos uma família e temos nossas particularidades e cultos: somos a nossa tradição.

Esta é a herança de Aradia. A famosa figura da Stregheria - principalmente pelas mãos de Charles Leland e seu Gospel - traz essa força: de quem volta às suas origens e as incorpora, saindo depois para levar a outros este mesmo processo. Eu penso que este é um processo que tem de acontecer para entrarmos em processo iniciático. Algo como "Conhece a ti mesmo". Se conhecer é tirar o primeiro véu de seus olhos e assumir sua
personalidade mágicka- independentemente de qual seja seu Caminho. Ao centrar meus estudos na Bruxaria Italiana, recebi uma grande oportunidade: a de poder olhar os meus e entender melhor por que estava fazendo aquilo (e por que continuo).

Eu creio que esta é uma das lições da mestra Aradia. A lição de trazer seu sangue e honrá-lo. Isto é dizer aos seus ancestrais: "não me esqueci de quem somos!".

Benedizioni di Diana

Pietra
(dichiaroluna@yahoo.com)