Frequently Asked Questions

Quando falamos de uma crença e de práticas espirituais, estamos falando da constituição de uma filosofia e assim, de uma forma de viver. Então, falar sobre Bruxaria Italiana pode nos levar a vários lugares comuns, de coisas há muito lidas, nem sempre entendidas e que valem ser clarificadas. Como uma pessoa que já deu algumas palestras e cuida de grupos virtuais sobre Bruxaria Italiana, resolvi então fazer um pequeno hall de dúvidas mais freqüentes.


-O que é Stregheria?
Stregheria é um termo em um dialeto italiano que significa Bruxaria. Esta palavra foi popularizada pelo autor norte-americano Raven Grimassi, quando em 1981, publicou o livro The Ways of the Strega. Assim, com o passar do tempo e a divulgação feita, principalmente nos EUA, a palavra Stregheria se tornou um sinônimo de Bruxaria Italiana.

-Qual a diferença entre Stregheria e Stregoneria?

Stregheria e Stregoneria são sinônimos linguisticamente, uma vez que o primeiro vem de um dialeto e o segundo, do italiano formal. A questão se coloca frente aos praticantes da Bruxaria Italiana. Os praticantes de uma linha mais tradicional ou hereditária dizem que a Stregheria é uma prática moderna de Bruxaria Italiana, uma vez que a palavra foi introduzida por Raven Grimassi. Eu, como praticante, prefiro usar a expressão Bruxaria Italiana, uma vez que nem todos, em nosso país, têm familiaridade com a palavra em italiano Stregoneria.

-Por que as streghe são tão fechadas frente às suas crenças?

As streghe (bruxas, em italiano) geralmente se mostram sim um tanto longe das conversas por um motivo simples: discrição frente ao grupo.

Muitos praticantes não gostariam de ver suas práticas e seus sentimentos de grupo expostos na web. Dessa forma, o segredo se tornou em si, uma prática. Ou seja, isso tudo não quer dizer que as streghe sejam egoístas ou que queiram suas práticas e crenças só para elas, mas vindo de um país extremamente católico como a Itália, não é estranho que muitas questões em relação a o que um grupo ou família façam sejam mais “escondidos”.

- Todas as streghe são seguidoras de Diana?
Não. Diferentemente do que possa se dizer ou se ler em alguns textos ou livros, nem todos os praticantes de Bruxaria Italiana são do secto de Diana. A idéia de que as bruxas são seguidoras de Diana vem, preponderantemente, da Idade Média, pois os documentos da Inquisição buscavam essas relações entre mulheres hereges e a antiga deusa pagã.

Desta forma, as streghe podem dedicar-se a qualquer panteão. Tanto relacionado com a região da quel se originam ou seus grupos se originam até a devoção dos Deuses Domésticos, os praticantes de Bruxaria Italiana buscam o divino em diferentes visões dele, não somente Diana.

- Quem é Aradia?
Aradia é uma figura muito falada dentro da Bruxaria Italiana e existem, para ela, muitos entendimentos. Além de ser o título do conhecido livro de Charles Leland, Aradia, o Evangelho das Bruxas, no qual ela é a filha da deusa Diana que vem à terra ensinar aos homens e mulheres sobre a Antiga religião. Para outros, ela tem uma figura de uma messias, de um avatar que veio ao mundo ensinar às pessoas como se relacionar com a terra que cultivavam. Assim, Aradia passa a fazer parte de alguns ritos, como lembrança de quem veio ensinar. Eu, pessoalmente, entendo Aradia como o espírito da ancestralidade, da busca pelas nossas raízes. Para saber mais sobre Aradia, leia (texto da Inês).

- Quem é Lúcifer?
Lúcifer, como dado pelo folclorista Charles Leland, como irmão de Diana e pai de Aradia. Nos estudos de bruxaria, torna-se uma figura polêmica, pois pode ser entendido de diversas formas, uma delas como Apollo e outra como uma forma do planeta Vênus. Também existem pensamentos que dizem que Leland usou o nome de Lúcifer para trazer um caráter do que se acreditava ser bruxaria no final do século XIX
– de uma forma quase “marketeira”.

-Qual a diferença entre Bruxaria Italiana e outros ramos de Bruxaria?
Bruxaria Italiana se difere das outras formas de Bruxaria pelas suas raízes. Suas origens vêm dos encontros na península italiana dos etruscos, romanos, gregos, celtas, mouros e povos pré-romanos, como os latinos e os sabinos. A Bruxaria Italiana tem dentro dela muitas práticas locais e assim, seus deuses e sua religiosidade.

Com o processo histórico e a tomada do Paganismo pelo Cristianismo, muitas práticas ganharam máscaras cristãs, mas que têm raízes nos cultos e hábitos dos pagãos. De forma que nem todos os praticantes fazem círculos mágickos, ou o chamam esse local sagrado dessa forma, por exemplo. As práticas dentro da Itália são tão diversas como é a sua cultura.


- Existe “Tradição Stregha”?
A “tradição stregha” é uma expressão que encontramos em muitos textos, principalmente em vias virtuais. Não existe uma tradição de Bruxaria Italiana e sim, várias. De forma que a Bruxaria Italiana, vista como Stregheria e/ou Stregoneria não são, por exemplo, uma tradição, um branch da Wicca.

-Raven Grimassi fala de uma tríade de tradições. Elas existem?
O autor norte-americano Raven Grimassi de fato fala de uma tríade de tradições (Janarra, Fanarra e Tanarra) que remontariam aos ensinamentos deixados por Aradia e que sua tradição, a Ariciana, tem essa raiz.

De fato, encontramos na Itália muitas palavras que se referem ás mulheres sábias, rezadeiras, curandeiras e parteiras de um local e que algumas delas nos lembram os nomes dessas tradições. Porém, não foram encontradas, essas tradições, em outras literaturas.

De forma que, existem muitas tradições de prática e crença na Bruxaria Italiana que diferem de lugar e de época, mas não necessariamente com a forma dada por Raven Grimassi.


-Quem não tem sangue ítalo, pode seguir os caminhos da Bruxaria Italiana?
Sim. As práticas e os estudos podem se dar dentro de uma família ou grupo que pode, inclusive, adotar pessoas que não tenham descendência direta. A espiritualidade é aberta a quem se dedica a ela.

-Todas as streghe são pagãs?
Não necessariamente. A escolha da filosofia da espiritualidade, da religiosidade, cristianismo, (neo)paganismo, islamismo, é uma escolha um tanto pessoal. Claro que ela pode seguir uma linha dentro da família ou do grupo, como os grupos que praticam a Benedicária – magia de cura católica. Eu escolhi o (neo)paganismo porque procuro as raízes das práticas devocionais e mágickas dos meus Ancestrais, mas minha família é cristã.


-Quais são as comemorações das streghe?
Os Ritos Sazonais também são muito conhecidos como Roda do Ano. Esse calendário de comemorações pode variar muito. Raven Grimassi, em suas obras sobre Stregheria propõe uma roda óctupla muito parecida com a roda wiccana.

Porém, outros praticantes buscam em suas regiões, sua paisagem e seus trabalhos, sustentos a sua roda. Não é sempre verdade que existem oito comemorações e nem sempre as streghe comemoram todas as luas cheias. Falarei mais sobre esse calendário e essas comemorações no link...


- As streghe amaldiçoam seus Deuses?
Uma visão comum sobre as streghe é que amaldiçoam pessoas e seus deuses. Esta é, de fato, uma prática que exitiu há algum tempo quando o chefe das tribos ou reis eram considerados semi-deuses ou sacerdotes que tinham contato direto com a Natureza. Assim, se não servissem a seu povo corretamente, eram mortos ou depostos. Num período mais moderno isso acabou por se transferir para os deuses, existindo textos que mostram ameaças à Diana, por exemplo. Mas a prática de maldições não é estranha a Bruxaria Italiana, tendo algumas raízes inclusive na magia romana.