O Caminho de Glauco
[de Pietra DiChiaro Luna]


Há algum tempo eu comprei um delicioso livro chamado "Mitos da Água"

(1). Ele traz um estudo psicológico de mitos relativos à água que, segundo a autora, representa a nossa alma. Na verdade, ela faz diversos paralelos entre a psique e a alma humana e os mitos, traçando uma evolução
espiritual. Como eu amo água, mar e coisas afins e os mitos aos quais a autora se reporta são basicamente os clássicos gregos, o livro me pegou em cheio. Um dos capítulos, então, foi muito mais pungente. Ele fala sobre Glauco, deus marinho, filho de Posêidon e Naís (uma ninfa). Glauco também é referido como "Aquele que Possui a Cor Azul-Clara do Mar".

Inspirador, não? Pois então, este deus nos mostra um caminho muito parecido com o que chamamos no (neo)paganismo de auto-iniciação (2). Alias, já fazia algum tempo que eu queria escrever esse texto... Vamos lá que a água está uma delícia!

Glauco é uma deidade grega (3) que nasceu mortal, mas se tornou uma deidade depois de provar algas que se moviam no mar de forma a provocar a curiosidade do rapaz - elas pareciam mágicas. Desde então, o seu corpo mortal se modificou e Glauco assumiu uma aparência de "sereia" e uma expressa barba esverdeada cresceu em seu rosto. Seu "poder" divino era a
divinação se tornando o interprete de Nereu, como uma espécie de pitonisa marinha (4).

O grande ponto da história de Glauco centra-se no modo como tornou-se imortal e deidificado. Ele provou uma planta marinha que acreditou ter virtudes mágicas. Suas suspeitas foram confirmadas e sua atitude recompensada. Mais que isso, essa história traz o símbolo do ato de comer.

Quando Glauco comeu a alga mágica, ele trouxe para si esta magia; ele a consumiu. Ele renasceu. Além disso, podemos nos debruçar sobre o ponto da"planta". Elas sempre foram mantenedoras de poderes mágicos, em
diversas mitologias, e consigo também trazem a eternidade, o sempre renovar dos ciclos da Criação dos Deuses. Glauco usou diversos símbolos significativos para se tornar um imortal: uma planta mágica que o renovou -
pelo incorporá-la a si.

Muito bem, linda história. Mas o que isso tem a ver com iniciações?

Eu acredito que iniciações são formas de renascimento e renovação de nossa essência. Elas geralmente acontecem de forma cíclica e, mesmo que não formais, podem ser sentidas. Literalmente, elas mexem conosco.

Algumas dessas iniciações acontecem com uma certa tutela de um mestre ou grupo deles; porém, outras são trazidas pelas energias do Cosmos que cultivamos de certa forma. Jung (5) coloca em seus estudos que o acaso não
existe, também pelas ligações que temos com o inconsciente coletivo.

Logo, podemos entender que o que acontece conosco não brota em algum lugar da eternidade. O mesmo vale para essa "iniciação" de Glauco. Minha mãe diz que "Deus dá o frio conforme o cobertor", e eu penso que ela está
certa. Uma coisa só aparece para nós quando estamos prontos, mas de uma forma ou outra, atraímos aquilo para nós. Iniciações são exatamente isso: uma passagem para um novo momento, um momento que precisamos
passar, porque chegou nossa hora. Com ele crescemos, aprendemos e ensinamos.

Na Stregheria, a iniciação pode se dar de diferentes formas: desde o simples nascer numa família de streghe até a adoção por casamento.
Existem também tradições que procuram por pessoas que se mostrem capazes de levar aquelas tradições adiante: esses são os iniciados escolhidos. As cerimônias podem contar com toda uma comunidade ou família, podendo ainda ser uma festa com espírito pagão ou não - o batizado na Igreja é
considerado uma iniciação em alguns clãs - além, de ritos sexuais ou provações físicas de diversas naturezas. E acho que posso dizer que existem os andarilhos do Caminho de Glauco...

"De forma geral, os mitos afirmam que o conhecimento, o criar de consciência (6), é o caminho para imortalidade.(...)O conhecimento do bem e do mal retira o indivíduo da alienação e o torna capaz de "ver" onde se encontra a Árvore da Vida ou a planta milagrosa que lhe dará a imortalidade, ou o conhecimento da eternidade do espírito. Glauco estava capacitado para "ver" e acreditou no que via; assim pôde reconhecer que se tratava da erva da imortalidade. Ele não necessitou de mestre ou guia que lhe indicasse o caminho, o seu conhecimento interno era seu próprio guia". pp. 85.

Esta referência da autora é o que eu chamo de Caminho de Glauco: o caminho daqueles que conseguem reconhecer sua verdade e a experimentam, passando por uma mudança, um renascimento, uma renovação. Glauco é o deus
daqueles que voltam ao seu centro, que podem ver com seus olhos essenciais.

Para terminar, eu me considero, em parte, uma andarilha do Caminho de Glauco. Sem falsas pretensões ou modéstias, mesmo porque eu sei que estou bem longe de ser uma grande iniciada, meu andar foi parecido com o de
Glauco. Nenhum mestre me acompanhou - pelo menos não fisicamente; mesmo assim, eu levo as tradições da minha família pelo pomar do
(neo)paganismo. Sozinha eu andei e ainda ando: não acredito em discípulos para
mim. Eu gosto de acreditar que os caminhos, quando deviam, se convergeram e aqui estou eu, aprendendo e ensinando com meus irmãos e irmãs streghe - ou magistas de quaisquer segmento - que me reconhecem como irmã de
sangue e trilha. Que Glauco continue a iluminar a minha estrada de pedras marrons (a beira-mar)!

Benedizioni di Glauco, Oceanus e Thetis,

Pietra
(dichiaroluna@yahoo.com)

(1) CAVALCANTI, Raissa. Mitos da água. São Paulo: Cultrix, 1997.
Recomendo para quem gosta de mitologia comparada.

(2) Não é a minha intenção fazer nenhuma apologia nem a favor, nem contra a auto-iniciação. Acredito que cada um dos leitores tem um ponto em relação a esse tópico, principalmente os mais experientes. Estas são
ponderações de quem acredita que cada pessoa tem seu caminho e o trilha
como acredita ser mais adequado.

(3) que pode ser remontado também à antiga Creta, pelas suas características marinhas.
(4) O oráculo de Nereu e Glauco era muito famoso entre os marinheiros gregos. O templo se localizava em Antedonte.

(5) JUNG, Carl Gustave. Mysterium Coniunctionis. Obras Completas, Vol. XIV. Petrópolis: Vozes, 1985. Esse Jung é o rei das figuras! Eu
simplesmente adoro as teorias dele. Vale a pena conhecer, principalmente a
parte que ele fala sobre símbolos e sinais.

(6)...que eu vejo como uma forma de iniciação...